Administração pública lidera mercado formal para jornalistas e revela novo perfil da profissão
Terceira reportagem da série “O Trabalho dos Jornalistas no Brasil” analisa uma questão central: afinal, quem mais emprega os jornalistas brasileiros hoje? O retrato do mercado formal de trabalho dos jornalistas brasileiros mudou profundamente na última década. Se durante muitos anos as grandes…
Terceira reportagem da série “O Trabalho dos Jornalistas no Brasil” analisa uma questão central: afinal, quem mais emprega os jornalistas brasileiros hoje?
O retrato do mercado formal de trabalho dos jornalistas brasileiros mudou profundamente na última década. Se durante muitos anos as grandes redações de jornais e revistas concentravam boa parte dos profissionais, hoje é a administração pública quem ocupa a posição de maior empregadora da categoria.
Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), elaborado para a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), a partir da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), mostra que, em 2025, a administração pública respondia por 26% dos 50.330 vínculos formais do jornalismo no país. Em seguida aparecem as atividades de televisão (20%), as empresas de consultoria em comunicação e assessoria de imprensa (12%), os portais, provedores de conteúdo e outros serviços de informação na internet (7%) e as atividades de rádio (6%).
O dado evidencia uma mudança estrutural na profissão. Enquanto os veículos impressos perderam espaço como empregadores, novas áreas passaram a absorver parte significativa da mão de obra jornalística.
A expansão da administração pública reflete o fortalecimento das estruturas de comunicação institucional nos três níveis de governo — federal, estadual e municipal —, além da atuação em universidades, tribunais, ministérios públicos, defensorias, assembleias legislativas, câmaras municipais e empresas públicas.
“Ao mesmo tempo, cresceram as oportunidades em assessorias de imprensa, comunicação corporativa, comunicação digital, produção de conteúdo e plataformas de informação na internet”, avalia a presidenta da FENAJ, Samira de Castro.
Os dados por ocupação ajudam a explicar essa transformação. Em 2025, a função que mais empregava jornalistas era justamente a de assessor(a) de imprensa, responsável por 12.664 vínculos formais, o equivalente a 25,2% do total da categoria. Em comparação, os repórteres — excluindo rádio e televisão — representavam apenas 8,8% dos empregos formais.
Para Samira de Castro, os números demonstram que o trabalho jornalístico vem sendo exercido em espaços muito mais diversificados do que no passado.
Samira de Castro é a presidenta da FENAJ. Foto: Saulo Cruz/Agência Senado
“Hoje o jornalista atua em redações, órgãos públicos, universidades, empresas, organizações da sociedade civil e plataformas digitais. A profissão ampliou seus campos de atuação, mas isso não significa que as condições de trabalho tenham melhorado”, acrescenta.
Segundo ela, a comunicação pública cumpre papel estratégico para garantir transparência e acesso da população às informações de interesse coletivo.
“As assessorias de comunicação dos órgãos públicos são fundamentais para aproximar a sociedade das políticas públicas e garantir o direito à informação. O problema não está nessa expansão, mas no encolhimento das redações e na precarização das relações de trabalho em diversos segmentos do mercado”, explica.
Outro movimento destacado pelo Dieese é o crescimento das atividades ligadas ao ambiente digital. Portais de notícias, provedores de conteúdo e serviços de informação já representam parcela significativa dos empregos formais do setor, refletindo a migração do consumo de notícias para plataformas digitais e a reorganização da indústria da comunicação. Para a FENAJ, a diversificação do mercado exige novas políticas de valorização profissional.
“Independentemente do local onde atua, o jornalista precisa ter remuneração digna, direitos trabalhistas assegurados, liberdade para exercer sua atividade e condições adequadas de trabalho. O direito da sociedade à informação depende da valorização desses profissionais”, afirma Samira de Castro.
Embora a configuração do mercado tenha mudado, o Dieese ressalta que seus dados abrangem apenas empregos formais registrados na RAIS. Permanecem fora das estatísticas profissionais contratados como pessoa jurídica (PJ), autônomos e outras modalidades de trabalho cada vez mais frequentes na comunicação.