As transformações do jornalismo e os desafios de quem exerce a profissão marcaram a abertura da Semana do Jornalismo (Semajor 2026), na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Com a participação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul (Sindjor-MS), a programação apresentou alguns dos resultados do Censo de Jornalistas de Mato Grosso do Sul, que contou com 271 participantes.
Promovida pelo curso de Jornalismo e pelo Centro Acadêmico de Jornalismo (CAJOR), a Semajor acontece entre os dias 26 e 28 de outubro, com o tema “Rupturas no jornalismo? Novas ferramentas, mesmos valores”. O evento reúne estudantes, pesquisadores e profissionais para discutir novas tecnologias, ética, condições de trabalho e valorização da categoria.
A coordenadora do curso de Jornalismo da UFMS e e integrante da comissão de ética do Sindjor-MS, Katarini Miguel, fala da importância da realização do evento e da parceria com o Sindjor-MS.
“Estamos realizando mais uma edição da SemaJor, para discutirmos práticas de ensino,mas também o mercado de trabalho, a situação dos jornalistas, condições de trabalho e possibilidades.O tema “Rupturas no jornalismo? Novas ferramentas, mesmos valores”, vem com uma pergunta porque por mais que temos novas ferramentas que vão provocar mudanças nos processos de fazer e pensar o jornalismo nós temos que manter os mesmos valores e os mesmos compromissos. E como o curso de jornalismo foi fundado na luta sindical, foi uma demanda da luta sindical era muito importante manter a parceria com o Sindjor e essa possibilidade de dialogar com o sindicato.
Na abertura, a presidenta do Sindjor-MS, Suelen Morales, destacou a importância do levantamento para orientar a atuação sindical e construir iniciativas que respondam às necessidades dos profissionais.
“Os dados do censo são fundamentais para orientar as ações afirmativas do sindicato e fortalecer a nossa luta. Precisamos conhecer a realidade da categoria para combater as desigualdades, lutar por igualdade salarial e ampliar a presença de mulheres jornalistas nos cargos de liderança. Seguimos na defesa de um piso salarial nacional e da aprovação da PEC do Diploma, pautas essenciais para a valorização da profissão”, afirmou.
À frente da Gestão Aurora, eleita com a primeira chapa composta integralmente por mulheres, Suelen também ressaltou a importância da aproximação dos estudantes com o sindicato.
“Queremos os estudantes perto do sindicato. A pré-filiação é uma oportunidade de participar dessa construção ainda na universidade, conhecer seus direitos e fortalecer a organização coletiva. A luta sindical começa quando entendemos que os desafios da profissão dizem respeito a todos nós”, completou.
Integrante da Comissão de Ética do Sindjor-MS e repórter do Campo Grande News, Maristela Brunetto também participou do evento, compartilhando suas experiências profissionais e reflexões sobre os desafios e as transformações do jornalismo.
“Eu achei os estudantes muito interessados, e a oportunidade de contar um pouco da nossa vivência é positiva para ambos. Sugeri que estejam sempre atentos às mudanças pelas quais a profissão passa, mas também abertos a rever pontos de vista e convicções, para se tornarem jornalistas mais preparados”, destacou Maristela.
Censo aproxima sindicato e universidade
Intitulado “Censo de Jornalistas de Mato Grosso do Sul: diálogos entre Sindicato e Universidade”, o levantamento foi apresentado pelo Grupo de Pesquisa “Comunicação e Mobilização dos Movimentos Feministas”. A pesquisa reúne informações sobre vínculos profissionais, jornadas, áreas de atuação, filiação sindical e experiências de discriminação.
Entre os resultados apresentados, 37,64% dos participantes informaram ter contrato CLT, enquanto 16,61% ocupavam cargos de confiança e 10,70% trabalhavam como terceirizados na modalidade pessoa jurídica (PJ).
Em relação à jornada, 26,20% declararam trabalhar oito horas diárias e 13,28%, mais de oito horas. A jornada de cinco horas foi informada por 19,19% dos participantes.
A assessoria de imprensa foi a área de atuação mais citada, com 36,53%, seguida pelos veículos on-line, com 28,78%. Esses são alguns dos dados do censo compartilhados durante o evento.
Uma das pesquisadoras do levantamento, a jornalista Tainá Jara também integra a Comissão de Ética da atual gestão do Sindjor-MS.
“O aprimoramento do Censo dos Jornalistas, cuja primeira edição foi realizada em 2019, nos dá mais do que apenas dados, mas nos apresenta elementos qualitativos que podem apontar caminhos para que o Sindjor-MS possa intervir de forma mais estratégica na realidade dos jornalistas, especialmente das mulheres e pessoas negras. A parceria com o grupo de pesquisa Mobilização e Comunicação dos Movimentos Feministas (CNPq/UFMS) é uma oportunidade dos levantamento ser tratado também de forma cientifica, resultando na elaboração de artigos, trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses. Produção cientifica e transformação profissional caminham de mãos dadas nesse projeto numa articulação entre ensino, pesquisa e extensão”, detalha.
Katarini, que também esteve a frente coordenando a pesquisa reforça que o Censo mostrou a alta qualificação dos jornalistas em nosso Estado.
“O levantamentos nos mostrou que grande parte dos jornalistas tem especialização, mestrado, doutorado, além da graduação. Então vemos uma mão de obra altamente qualificada super precarizada”, finaliza a coordenadora.
Desigualdades e organização coletiva
A filiação sindical também esteve entre os temas apresentados. Dos 271 participantes do censo, 61, equivalentes a 22,5%, declararam ser filiados ao Sindjor-MS, enquanto 210, ou 77,5%, informaram não ser filiados.
No recorte de 86 jornalistas negros e indígenas, 19 relataram ter enfrentado obstáculos na carreira e 22 afirmaram ter sido a única pessoa negra ou indígena na equipe. Nesse grupo, apenas 20 participantes, ou 23,26%, disseram conhecer mecanismos de apoio e acolhimento.