O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul (Sindjor-MS), por meio da Gestão Aurora – Vozes do Jornalismo, manifesta solidariedade aos povos indígenas diante das denúncias de ameaças, racismo e violência no estado. Reafirmamos nosso compromisso com a proteção dos povos originários, a valorização das jornalistas e dos jornalistas indígenas, a liberdade de imprensa e a democracia.

Mato Grosso do Sul possui a terceira maior população indígena do Brasil, atrás apenas do Amazonas e da Bahia. Segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, são 116.346 pessoas indígenas no estado. Essa presença precisa ser reconhecida por meio do respeito às suas vidas, culturas, línguas, territórios e formas de organização, assim como da garantia de espaços de participação política e produção da informação.

Nenhuma pessoa pode ser ameaçada, discriminada ou privada de direitos por sua origem, identidade ou escolha política. O racismo e a intimidação contra os povos indígenas exigem respostas firmes das instituições e o compromisso de toda a sociedade.

Proteção às comunidades

As denúncias encaminhadas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) levaram o Ministério Público Federal a instaurar procedimentos para investigar ameaças e intimidações contra comunidades indígenas após o segundo turno das eleições.

Entre os relatos estão gravações com supostas ameaças de envenenamento da água consumida por comunidades de Tacuru. O MPF cobrou esclarecimentos e medidas de proteção, e a prefeitura informou a abertura de processo administrativo disciplinar e o afastamento de dois servidores. As ameaças estão sob apuração, sem confirmação de contaminação da água nas informações consultadas.

O governo federal mobilizou reforços para a segurança, com a atuação da Força Nacional em três comunidades indígenas do sul do estado. Também foram anunciadas uma comitiva ministerial e uma força-tarefa interministerial para receber e encaminhar denúncias aos órgãos responsáveis.

Essas medidas precisam resultar em proteção efetiva, continuidade dos serviços essenciais e investigação dos fatos, com a responsabilização de quem cometer crimes.

O recorte racial do censo

O “Censo de Jornalistas de Mato Grosso do Sul: diálogos entre Sindicato e Universidade” contou com 271 participantes. A parceria entre o Sindjor-MS e o Grupo de Pesquisa “Comunicação e Mobilização dos Movimentos Feministas” contribui para orientar a atuação sindical a partir das experiências vividas pela categoria.

No recorte de 86 jornalistas negros e indígenas, 19 relataram obstáculos na carreira e 22 afirmaram ter sido a única pessoa negra ou indígena na equipe. Outros 15 disseram ter sua competência questionada ou desvalorizada, enquanto 18 relataram ter sido preteridos em promoções ou reconhecimentos. Onze participantes registraram experiências de sexualização ou hipervalorização da aparência.

Apenas 20 pessoas desse grupo, ou 23,26%, afirmaram conhecer mecanismos de apoio e acolhimento. Outras 33 disseram não conhecer esses mecanismos, e 33 tiveram suas respostas classificadas como não informado, em branco ou não se aplica.

Os resultados reforçam a necessidade de enfrentar a discriminação nas relações profissionais, ampliar oportunidades e divulgar os canais de denúncia e acolhimento. Como o recorte reúne jornalistas negros e indígenas, os dados apresentados não permitem identificar separadamente as experiências de cada grupo.

A jornalista e pesquisadora Tainá Jara, também integrante da Comissão de Ética da atual gestão do Sindjor-MS, destaca:

“O aprimoramento do Censo dos Jornalistas, cuja primeira edição foi realizada em 2019, nos dá mais do que apenas dados, mas nos apresenta elementos qualitativos que podem apontar caminhos para que o Sindjor-MS possa intervir de forma mais estratégica na realidade dos jornalistas, especialmente das mulheres e pessoas negras.”

“Produção científica e transformação profissional caminham de mãos dadas nesse projeto, numa articulação entre ensino, pesquisa e extensão”, acrescenta.

Jornalistas indígenas e liberdade de imprensa

As jornalistas e os jornalistas indígenas precisam ter oportunidades de formação, contratação, remuneração digna e acesso aos cargos de liderança. Sua presença nas redações, universidades e iniciativas de comunicação fortalece a pluralidade e contribui para enfrentar estereótipos e silenciamentos.

“As denúncias recentes de violência e ameaças contra comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul exigem atenção das autoridades, da imprensa e da sociedade. Cada relato precisa ser apurado com rigor, com escuta das comunidades, proteção das fontes e acompanhamento das providências adotadas pelos órgãos responsáveis.

A responsabilidade jornalística inclui distinguir denúncias, indícios e fatos confirmados, contextualizar conflitos e evitar a reprodução de discursos racistas ou de conteúdos que exponham pessoas ameaçadas. Mortes e outros episódios de violência precisam ser investigados, sem antecipação de conclusões sobre autoria, motivação ou eventual relação com acontecimentos políticos.

Liberdade de imprensa e proteção dos povos originários fazem parte do mesmo compromisso democrático. Para que a sociedade saiba o que acontece, jornalistas precisam trabalhar sem intimidação, censura ou violência. Para que a cobertura seja plural, profissionais indígenas também precisam ter sua segurança, sua autoria e sua autonomia respeitadas.

A cobertura deve continuar depois da primeira notícia: acompanhar investigações, cobrar respostas e verificar se as medidas de proteção chegaram às comunidades também é responsabilidade da imprensa”, afirma Suelen Morales, presidenta do Sindjor-MS.

Canais de denúncia e acolhimento

Denúncias de ameaças, perseguição, violência política e outras violações contra os povos indígenas podem ser encaminhadas pelos canais divulgados pelo Ministério dos Povos Indígenas:

Jornalistas indígenas que estejam enfrentando censura, assédio, racismo, intimidação ou outras violações no exercício profissional podem procurar o Sindjor-MS pelo WhatsApp (67) 99445-9463.

Em situações de risco imediato, deve-se acionar o 190. Ao receber, encaminhar ou divulgar denúncias, é fundamental preservar informações que possam colocar vítimas, fontes e testemunhas em perigo.

O Sindjor-MS conclama profissionais e empresas de comunicação, universidades, instituições públicas e organizações da sociedade civil a enfrentar o racismo, proteger os povos originários e fortalecer a presença de jornalistas negros e indígenas nos espaços de produção e decisão.

Proteger os povos indígenas, respeitar suas vozes e combater a desigualdade racial são responsabilidades permanentes de uma sociedade democrática.

Campo Grande (MS), 30 de outubro de 2026.

Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul — Sindjor-MS
Gestão Aurora – Vozes do Jornalismo | 2026–2029